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O Brasil dos Coronéis: Oligarquias e o Controle do Estado na República Velha (1894-1930)

A República Velha, também conhecida como Primeira República (1889–1930), foi um período crucial para a formação das estruturas políticas e sociais do Brasil moderno. Iniciada com a Proclamação da República por Marechal Deodoro da Fonseca, em 15 de novembro de 1889, essa fase foi marcada pelo domínio das elites agrárias no âmbito regional, notadamente de São Paulo e Minas Gerais, e por um modelo político excludente e autoritário. Nesse contexto, a chamada "democracia do voto" era apenas uma fachada para esconder um complexo sistema de controle oligárquico, manipulação eleitoral e clientelismo.


As estruturas do Estado estavam moldadas para garantir a hegemonia das oligarquias locais, principalmente por meio de mecanismos de controle e reciprocidade como o coronelismo, a política dos governadores e a política do café com leite. Esses instrumentos garantiam que a elite rural mantivesse o domínio sobre os três poderes e sobre a economia nacional.


Este artigo analisará de forma ampla e detalhada as práticas políticas desse período, destacando os principais conceitos e estratégias utilizadas pelas oligarquias para manter o controle sobre o país. Abordaremos as práticas de clientelismo, a manipulação eleitoral, as políticas econômicas voltadas aos interesses do setor cafeeiro e a atuação dos principais partidos e presidentes da época, tudo isso com base em autores renomados e documentos históricos.


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A Ascensão das Oligarquias Regionais

Durante o período, as oligarquias agrárias se consolidaram, a partir da eleição de Prudente de Moraes em 1894, como as grandes dominadoras do cenário político. Esses grupos eram compostos, em sua maioria, por grandes proprietários rurais que detinham terras, riqueza e influência nas regiões em que atuavam. São Paulo, com seu poderoso setor cafeeiro, e Minas Gerais, com sua produção agropecuária e populosa representação política, emergiram como os principais centros de poder do país.


O controle do poder se dava por meio de redes de clientelismo político, onde o coronel local — nome atribuído ao chefe político regional — exercia influência sobre eleitores, funcionários públicos e instituições. Essa figura era responsável por garantir os votos nos municípios e recebia em troca: prestígio, recursos e favores do governo estadual ou federal. Como bem pontua o cientista político Victor Nunes Leal, autor de Coronelismo, Enxada e Voto, “o poder local é a engrenagem primeira do sistema político brasileiro”.


Essas oligarquias também controlavam as assembleias legislativas estaduais, dominavam os partidos regionais e influenciavam a nomeação de juízes, chefes de polícia e fiscais. Esse ciclo de dominação era renovado a cada eleição, garantindo uma estabilidade apenas aparente e uma democracia sem povo.


Política dos Governadores*

Criação e Idealizador (Campos Sales)

A política dos governadores foi instituída por Campos Sales, presidente entre 1898 e 1902, como uma estratégia para garantir governabilidade em um cenário de forte descentralização e conflitos entre poderes estaduais. Seu principal objetivo era criar uma aliança entre o governo federal e os governadores estaduais para controlar o Congresso Nacional e garantir a estabilidade do regime republicano.


Sales entendia que o país estava fragmentado politicamente e que seria impossível governar com um Congresso Nacional hostil. Assim, propôs um pacto informal onde o presidente da República apoiava os governadores e, em troca, estes garantiam apoio político federal, elegendo bancadas fiéis em seus estados.


Conforme explicou o próprio Campos Sales: "É tempo de fazer a política dos Estados como a política nacional, apoiando-nos mutuamente para que a União faça a política dos Estados como os Estados fazem a política da União".


O historiador José Murilo de Carvalho observa que "a Política dos Governadores representou a institucionalização do federalismo oligárquico, criando um sistema estável de dominação".


Funcionamento Prático do Mecanismo

O mecanismo da política dos governadores era relativamente simples: o governo federal aceitava os resultados das eleições estaduais (frequentemente fraudadas pelos coronéis), e, em contrapartida, os deputados e senadores desses estados votavam com o presidente no Congresso. As comissões verificadoras de poderes no Senado e na Câmara validavam ou anulavam os mandatos conforme o interesse do governo federal, tornando-se instrumentos de controle e repressão de adversários.


Esse arranjo ajudava a manter uma falsa aparência de federalismo e democracia, mas, na prática, era uma engrenagem política extremamente centralizadora e manipuladora. Como escreveu José Murilo de Carvalho, “não se tratava de equilíbrio entre poderes, mas de um conluio para a manutenção do status quo oligárquico”.


*No final do artigo terá um infográfico resumindo sobre o tema.


Consequências e Perpetuação do Poder Oligárquico

A política dos governadores consolidou a hegemonia das oligarquias estaduais e regionais, especialmente as de São Paulo e Minas Gerais, que souberam utilizar esse mecanismo para influenciar diretamente a política nacional. Esse sistema vigorou até o final da República Velha, sendo duramente criticado por militares e setores urbanos emergentes.

Além de engessar o sistema político, impediu reformas sociais e econômicas profundas. As estruturas de poder se tornaram ainda mais elitistas, e qualquer tentativa de oposição era rapidamente silenciada. Com o tempo, esse modelo de “acordo entre iguais” se tornou insustentável, especialmente diante das tensões sociais e econômicas da década de 1920.


Política do Café com Leite


Origem da Expressão e Estados Envolvidos

A expressão “política do café com leite” tornou-se emblemática para designar o acordo informal entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais durante a República Velha. O "café" representava a elite cafeeira paulista, enquanto o "leite" simbolizava os pecuaristas e produtores mineiros. Essa metáfora simplificada ilustra a alternância de poder entre os dois estados, que controlavam a presidência da República e a maioria das decisões políticas nacionais.


A origem da expressão se popularizou no início do século XX, com base na constatação de que a sucessão presidencial era constantemente disputada apenas entre políticos oriundos desses dois estados. Segundo o historiador Lira Neto, “o Brasil não era uma república federativa, mas sim uma propriedade privada das elites de São Paulo e Minas Gerais”.


Conforme destaca Edgard Carone, "a Política do Café com Leite não era apenas uma aliança eleitoral, mas um projeto de dominação que subordinava os interesses nacionais aos interesses dos grandes fazendeiros de café e pecuaristas".


Mecanismo de Alternância no Poder

O acordo entre as oligarquias dos dois estados previa uma alternância de presidentes oriundos de São Paulo e Minas Gerais (indicados por cada estado, não precisaria ser mineiro ou paulista). Esse pacto informal assegurava a manutenção da ordem política e econômica, pois ambos os estados eram os mais influentes economicamente — São Paulo devido ao café e Minas por sua população e força política (a bancada mineira era expressiva no Congresso).


O funcionamento era simples: quando o presidente era paulista, o vice era mineiro, e vice-versa. Esse arranjo era garantido por meio de alianças nos bastidores, onde se definia quem seria o candidato “natural” à presidência, com apoio das máquinas eleitorais estaduais e da Comissão Verificadora de Poderes. O apoio mútuo entre essas oligarquias impedia o surgimento de candidaturas oposicionistas viáveis.


Conflitos Internos e Fissuras Políticas

Posteriormente, a Campanha Civilista (1909-1910) representou uma tentativa de quebrar o acordo, com Rui Barbosa questionando: "O Brasil não pode continuar sendo uma fazenda de café governada por fazendeiros de café".


Apesar de parecer um sistema coeso, a política do café com leite teve diversos momentos de crise. O mais notório foi em 1930, quando o presidente Washington Luís (paulista) rompeu o acordo ao indicar outro paulista, Júlio Prestes, para sua sucessão, preterindo o candidato mineiro Antônio Carlos. Esse gesto gerou forte reação de Minas Gerais, que se aliou ao Rio Grande do Sul e à Paraíba na chamada Aliança Liberal, apoiando Getúlio Vargas como candidato de oposição.


Esse rompimento desencadeou a Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha e à política do café com leite. Como afirmou o presidente mineiro Antônio Carlos Ribeiro de Andrada: “Façamos a revolução antes que o povo a faça.” A frase sintetiza o temor das elites diante da crescente insatisfação popular e a fragilidade de um sistema baseado em acordos entre cúpulas.


Coronelismo: A Base do Poder Local


Quem Eram os Coronéis e Seu Poder Regional

O coronelismo foi um dos pilares da política da República Velha. Os coronéis eram grandes proprietários de terra, chefes políticos locais que controlavam regiões inteiras por meio de sua influência econômica, social e até militar. O título de “coronel” vinha, em muitos casos, das antigas patentes da Guarda Nacional, mas era usado de forma honorífica para qualquer chefe político rural influente.


Esses coronéis exerciam poder absoluto sobre suas comunidades. Como destaca Victor Nunes Leal, o coronel era, ao mesmo tempo, juiz, delegado, padre e prefeito informal. Nada acontecia em seu território sem sua autorização. Em troca de fidelidade, ele oferecia favores, empregos, segurança e acesso a recursos públicos.


Voto de Cabresto e Curral Eleitoral

A principal ferramenta de poder dos coronéis era o controle do voto. Como o voto era aberto (não secreto), o eleitor votava sob a supervisão direta do coronel ou de seus capangas (jagunços). Essa prática era conhecida como voto de cabresto, onde o eleitor era literalmente “conduzido” a votar conforme a vontade do chefe político.


O local de controle de votos era chamado de curral eleitoral, uma metáfora que associava os eleitores a gado, reforçando a ideia de submissão e propriedade. Nessas regiões, o coronel indicava os candidatos que receberiam os votos, e não havia espaço para oposição. Quem ousasse votar contra podia sofrer represálias violentas ou perder o acesso a benefícios básicos.


Uma das mais ilustrações mais conhecidas sobre o "voto de cabresto". Fonte: O Careta, 19 de fevereiro de 1927, p.14.
Uma das mais ilustrações mais conhecidas sobre o "voto de cabresto". Fonte: O Careta, 19 de fevereiro de 1927, p.14.

Clientelismo e Troca de Favores

O sistema político da República Velha era sustentado por um complexo sistema de clientelismo, no qual os coronéis ofereciam recursos e benefícios em troca de lealdade política. Isso incluía desde emprego público, isenção de impostos, proteção contra a justiça, até doações de alimentos e remédios. O Estado era visto como uma extensão dos interesses privados do coronel.


O clientelismo não era apenas uma estratégia local. Ele se integrava com a política dos governadores e a política do café com leite. Os votos controlados pelos coronéis fortaleciam os governadores, que por sua vez apoiavam o presidente da República. Em troca, os coronéis recebiam mais recursos, cargos e prestígio, formando um ciclo vicioso de dominação e perpetuação do poder.


Mandonismo

Exercício arbitrário do poder local, onde os coronéis decidiam questões jurídicas, econômicas e sociais sem interferência do Estado central. Como observa José Murilo de Carvalho, "o mandonismo era a face mais visível do privatismo que caracterizava a República Velha".


A Comissão Verificadora de Poderes - “A Degola”


Formação e Objetivo

A Comissão Verificadora de Poderes era um órgão interno do Senado e da Câmara dos Deputados, criado para verificar a legalidade das eleições e julgar os mandatos dos parlamentares eleitos. Na prática, ela funcionava como um instrumento político do governo federal para aceitar ou recusar parlamentares conforme seus interesses. Composta por membros da situação, a comissão "degolava" sistematicamente os candidatos de oposição, independentemente de terem sido eleitos.


Criada formalmente com o argumento de moralizar o processo eleitoral, rapidamente se tornou um instrumento de fraude institucionalizada. Os membros da comissão eram aliados do presidente ou dos governadores e decidiam quem tomava posse ou não.


Segundo Victor Nunes Leal, "a Comissão Verificadora era o instrumento final de controle, garantindo que apenas os representantes do sistema oligárquico chegassem ao Congresso".


Manipulação das Eleições e Exclusão de Opositores

Quando algum opositor do regime vencia uma eleição — o que era raro — a Comissão Verificadora podia simplesmente anular os resultados, alegando fraudes ou irregularidades técnicas. Isso impedia que vozes contrárias ao governo chegassem ao Parlamento, criando um Congresso homogêneo e submisso.


Como observa o historiador José Murilo de Carvalho, “o Parlamento era um teatro onde os atores já chegavam com seus papéis definidos pelas comissões, e o roteiro vinha pronto do Executivo.” Assim, a separação entre os poderes era inexistente, e o Legislativo atuava como uma extensão do Executivo.


Controle Legislativo Centralizado

O poder central do Executivo federal usava a Comissão para manter controle sobre os estados e suas bancadas. Deputados e senadores sabiam que sua posse dependia da fidelidade ao presidente ou ao seu governador. Isso reforçava o ciclo da política dos governadores, pois os chefes estaduais só indicavam parlamentares leais ao presidente.


Portanto, a Comissão Verificadora de Poderes foi um dos principais alicerces do controle oligárquico durante a República Velha, mascarando com legalidade um sistema amplamente autoritário.


Política dos Salvamentos


Intervenções Federais em Estados Opositores

A política dos salvamentos consistia em intervenções federais “legítimas” em estados considerados instáveis ou sob controle de oligarquias hostis ao governo federal. O nome vem da justificativa oficial: "salvar a ordem pública e democrática". Na realidade, essas intervenções tinham o objetivo de colocar no poder aliados do presidente da República. Como analisa José Maria Bello, "os salvamentos não salvaram a República do oligarquismo, apenas redistribuíram o poder oligárquico".


Rua de Salvador após bombardeio pelo Governo Federal durante a Política das Salvações. Fonte: Wikipedia
Rua de Salvador após bombardeio pelo Governo Federal durante a Política das Salvações. Fonte: Wikipedia

O presidente nomeava um novo governador "interventor" para substituir os antigos líderes estaduais. Em muitos casos, tropas federais eram enviadas para garantir a posse do novo governo. Era uma estratégia de centralização autoritária disfarçada de normalidade institucional.


Exemplo de resistência no Ceará e no Rio Grande do Sul

No Ceará, a oligarquia local resistiu à dominação federal durante boa parte da República Velha. Em 1912, o governo federal interveio no estado, substituindo seus líderes por políticos alinhados ao presidente Hermes da Fonseca, que implementava a política dos salvamentos com rigor, o que ocasionou a Sedição de Juazeiro, liderada pelo Padre Cícero. Situação semelhante ocorreu no Rio Grande do Sul, onde as disputas internas exigiram repetidas intervenções.


Reação das Oligarquias Ameaçadas

Apesar da justificativa oficial, os salvamentos eram mal vistos pelas elites estaduais. O temor de perder o controle local fez com que várias oligarquias se tornassem ainda mais repressoras, buscando eliminar qualquer risco de intervenção federal. Isso gerou tensões permanentes e conflitos armados, especialmente nos estados do Nordeste.


Essas práticas contribuíram para o desgaste da República Velha e fortaleceram os grupos de oposição, que denunciavam o autoritarismo do sistema e clamavam por reformas profundas.


As Políticas Econômicas do Período


O Funding Loan

O Funding Loan, assinado em 1898 durante o governo Campos Sales, foi um acordo de renegociação da dívida externa brasileira com banqueiros ingleses. O objetivo era estabilizar as finanças públicas após o descontrole econômico da República da Espada (1889-1894). Em troca da prorrogação dos prazos da dívida, o Brasil se comprometia a cortar gastos públicos, aumentar impostos e garantir o pagamento dos credores externos (tal como acontece atualmente com o FMI e outros bancos de fomento).


Esse acordo marcou o início da política de austeridade no país e priorizou os interesses dos credores internacionais em detrimento das necessidades internas. O povo sentiu os efeitos na forma de recessão, desemprego e miséria. As elites, por outro lado, preservaram seus patrimônios e ampliaram sua influência sobre o Estado.


Convênio de Taubaté


Charge publicada na revista O Malho, de 24 de março de 1906 (Acervo Biblioteca Nacional)
Charge publicada na revista O Malho, de 24 de março de 1906 (Acervo Biblioteca Nacional)

O Convênio de Taubaté, assinado em 1906, foi uma política de valorização do café implementada por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Com a superprodução de café no início do século XX, os preços internacionais despencaram. Para proteger os lucros dos cafeicultores, os governos estaduais decidiram comprar os estoques excedentes e estocar o produto para evitar queda nos preços.


Esse convênio teve forte apoio do governo federal, que concedeu empréstimos para sustentar a política. Quem arcou com os custos foram os cofres públicos e a população em geral. Era uma política feita para salvar os grandes produtores — especialmente os barões do café — enquanto ignorava os interesses dos pequenos agricultores e da população urbana.


Valorização do Café e Seus Impactos

O mecanismo de valorização do café funcionou até certo ponto, mas gerou um ciclo vicioso: a produção aumentava ainda mais, estimulada pelos altos preços artificiais, e o governo tinha que gastar mais para comprar os excedentes. Essa política beneficiava quase exclusivamente a oligarquia paulista e alimentava a dependência do Brasil de um único produto de exportação.


O historiador Boris Fausto afirma que “a economia da República Velha era organizada em torno dos interesses da elite cafeeira paulista, com apoio irrestrito do governo federal.” Esse modelo gerou uma estrutura econômica frágil e desigual, que não resistiu à crise de 1929 e precipitou a queda do regime.


Os Principais Partidos da República Velha


PRP, PRM e Outros Partidos Estaduais

Durante a República Velha, os partidos políticos eram essencialmente regionais, voltados para os interesses locais das oligarquias. Os mais influentes foram o Partido Republicano Paulista (PRP), dominado pela elite cafeeira de São Paulo, e o Partido Republicano Mineiro (PRM), vinculado à elite agrária de Minas Gerais.


Esses partidos não tinham ideologias claras ou programas nacionais. Funcionavam como instrumentos de poder das oligarquias estaduais, controlando as eleições, o legislativo e os cargos públicos. As disputas eleitorais ocorriam entre grupos da mesma elite, e não havia espaço para a participação popular ou para partidos de massas.


Ausência de Partidos de Massas

Diferente das democracias europeias da época, o Brasil não desenvolveu partidos organizados em torno de trabalhadores, intelectuais ou setores médios urbanos. As tentativas de criação de partidos operários ou socialistas foram duramente reprimidas, especialmente após a Revolta da Vacina (1904) e as greves operárias de 1917, por exemplo, o surgimento do Partido Comunista do Brasil só ocorreu em 1922. 


Esse vácuo político contribuiu para a emergência do tenentismo nos anos 1920, um movimento de jovens oficiais do Exército que se revoltaram contra o sistema oligárquico e exigiam modernização política e econômica.


Fragmentação e Regionalização da Política

A política da República Velha era altamente fragmentada. Cada estado possuía seu próprio partido dominante, sem qualquer articulação nacional real. O PRP controlava São Paulo; o PRM, Minas; o Partido Republicano Baiano, a Bahia, e assim por diante. Essa fragmentação reforçava o federalismo oligárquico, dificultando reformas nacionais e criando um sistema de feudos políticos.


O historiador José Murilo de Carvalho resume bem esse quadro: “a política nacional era uma colcha de retalhos, onde cada pedaço era costurado pelas mãos das elites locais, e o povo nunca teve a linha nem a agulha.”


Críticas Contemporâneas e Finais do Sistema


A Crise de 1929 e Seus Efeitos

A crise de 1929 foi o estopim do colapso da República Velha. Com a queda da Bolsa de Nova York, o preço do café despencou no mercado internacional, arruinando as finanças do governo e a economia paulista. A valorização do café tornou-se insustentável, e a dependência de um único produto revelou sua fragilidade.


Sem recursos para manter a política de estoques, o governo perdeu o apoio dos cafeicultores, e as tensões sociais se agravaram. A inflação disparou, o desemprego aumentou, e os setores urbanos começaram a exigir mudanças profundas.


Tenentismo e Contestação ao Regime

O movimento tenentista, formado por jovens oficiais do Exército, ganhou força nos anos 1920. Insatisfeitos com a corrupção e o atraso do sistema político, esses militares organizaram revoltas em diversas regiões, como a Revolta dos 18 do Forte (1922), a Coluna Prestes (1925–1927) e a Revolta Paulista (1924).


Esses movimentos não chegaram a derrubar o regime, mas desgastaram sua legitimidade e prepararam o terreno para a Revolução de 1930. Como escreveu Luís Carlos Prestes: “Era preciso romper com a farsa republicana e inaugurar uma verdadeira representação nacional.”


A Revolução de 1930 e o Fim da República Velha

A eleição de 1930, marcada pela fraude e pela exclusão do candidato da Aliança Liberal, Getúlio Vargas, foi o estopim da crise final. Com o assassinato do vice de Vargas, João Pessoa, e a recusa do governo em reconhecer a vitória de Júlio Prestes, iniciou-se a Revolução de 1930.


As tropas rebeldes marcharam até o Rio de Janeiro, e o presidente Washington Luís foi deposto. Vargas assumiu o poder como chefe de um governo provisório, encerrando a República Velha e inaugurando uma nova fase da história brasileira.


Presidentes da República Velha (Lista Cronológica)

Durante a República Velha, o Brasil teve 13 presidentes, sendo que os primeiros dois, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, pertencem à chamada República da Espada (1889–1894), marcada pela forte influência militar. A partir de Prudente de Morais, inicia-se o período civil, dominado pelas oligarquias regionais.

Presidente

Período

Estado de Origem

Partido/Grupo

Deodoro da Fonseca

1889–1891

Alagoas

Militar (sem partido)

Floriano Peixoto

1891–1894

Alagoas

Militar (sem partido)

Prudente de Morais

1894–1898

São Paulo

PRP

Campos Sales

1898–1902

São Paulo

PRP

Rodrigues Alves

1902–1906

São Paulo

PRP

Afonso Pena

1906–1909

Minas Gerais

PRM

Nilo Peçanha

1909–1910

Rio de Janeiro

PRF

Hermes da Fonseca

1910–1914

Rio Grande do Sul

Militar (PRC)

Venceslau Brás

1914–1918

Minas Gerais

PRM

Delfim Moreira

1918–1919

Minas Gerais

PRM

Epitácio Pessoa

1919–1922

Paraíba

PRP / Aliança da Oligarquia

Artur Bernardes

1922–1926

Minas Gerais

PRM

Washington Luís

1926–1930

São Paulo

PRP

Infográfico com os Presidentes da República Velha. Fonte: Politize!
Infográfico com os Presidentes da República Velha. Fonte: Politize!

Presidente - Formação Acadêmica - Profissão de Origem

Prudente de Morais - Direito (Faculdade de Direito de São Paulo) - Advogado, jurista e político

Campos Sales - Direito (Faculdade de Direito de São Paulo) - Advogado, jurista e político

Rodrigues Alves - Direito (Faculdade de Direito de São Paulo) - Advogado, promotor e político

Afonso Pena - Direito (Faculdade de Direito de São Paulo) - Advogado, professor e político

Nilo Peçanha - Direito (Faculdade de Direito do Recife) - Advogado e político

Venceslau Brás - Direito (Faculdade de Direito de São Paulo) - Advogado e político

Delfim Moreira - Direito (Faculdade de Direito de São Paulo) - Advogado e político

Epitácio Pessoa - Direito (Faculdade de Direito do Recife) - Advogado, jurista e diplomata

Artur Bernardes - Direito (Faculdade de Direito de São Paulo) - Advogado, jornalista e político

Washington Luís - Direito (Faculdade de Direito de São Paulo) - Advogado, historiador e político


Citações Importantes de Presidentes e Historiadores

Para compreender a mentalidade e os valores políticos da República Velha, é essencial resgatar frases marcantes de presidentes e análises de historiadores sobre o período.


📌 Citações de políticos:

  • Campos Sales: “A governabilidade exige o afastamento da paixão política e a adesão ao pacto federativo.”

  • Washington Luís: “A questão social é caso de polícia.” – frase que resume a visão repressiva frente às demandas populares.

  • Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (governador de MG): “Façamos a revolução antes que o povo a faça.” – um claro indício do medo das elites diante da insatisfação popular.


📌 Citações de Historiadores:

  • Raymundo Faoro (Os Donos do Poder): “O patrimonialismo não é apenas um vício do Estado; é o próprio modo de funcionamento da política brasileira.”

  • Boris Fausto (História do Brasil): “A República Velha foi uma democracia de fachada, com eleições fraudadas e domínio absoluto das oligarquias.”

  • José Murilo de Carvalho: “O povo, durante a República Velha, era uma massa marginal à política, convocada apenas para referendar o poder dos senhores.”


    Infográfico de como funcionava a Política dos Governadores. Fonte: Politize!
    Infográfico de como funcionava a Política dos Governadores. Fonte: Politize!

Bibliografia Recomendada


FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 12. ed. São Paulo: Globo, 2001.


LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: Alfa-Ômega, 1975.


FAUSTO, Boris. História do Brasil. 13. ed. São Paulo: Edusp, 2013.


HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


SILVA, Hélio. A República Velha: evolução política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.


VISCARDI, Cláudia M. R. Processos eleitorais e democracia: o voto na Primeira República (Artigo). In: Café História. Publicado em 3 mai. de 2021. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/processos-eleitorais-e-democracia-o-voto-na-primeira-republica/.


Por Lewy Mota, historiador, professor de História e membro do Podcast História e Sociedade, faz pesquisas sobre vários períodos históricos, mas a Idade Média é sua favorita, além de ser fã de Star Wars, Senhor do Anéis, Duna e Game Of Thrones (gosta de Sagas).


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